Avós ausentes: O que está por trás desse fenômeno?
Avós ausentes: O que está por trás desse fenômeno?
“Meus pais não são os avós que imaginei”. Este foi o assunto do email que chegou aqui na semana passada, escrito pela Lucila. Ela trabalha na área da saúde, mora na região metropolitana do Rio, é casada e tem uma filha de 5 anos, Giovana.
Lucila tem pai e mãe, divorciados há bastante tempo e civilizados no convívio e um irmão bem próximo. Os antecedentes familiares de estabilidade não a livraram de um fenômeno crescente e até pouco tempo impensável: o dos avós ausentes.
A crise de Lucila com os pais escalou nas últimas semanas, período que coincidiu com as férias escolares. Mas a queixa sobre indisponibilidade não é de hoje. “Meus pais me ajudam quando peço, mas é sempre uma burocracia”, contou em entrevista por vídeo. E desabafou: “Sinceramente, eu esperava mais deles enquanto avós”.
Avós conscientes, livres e ocupados: o novo normal
Os pais de Lucila, assim como muitos avós dessa geração, têm quebrado o paradigma de serem cuidadores compulsórios. Aquele pilar invisível (e muitas vezes vitalício), com o qual filhos adultos naturalmente contam quando decidem ter bebês.
Mesmo oficialmente aposentados (ou nem isso), os novos avós têm agenda cheia, vida social intensa, projetos pessoais e pouco interesse em assumir um trabalho nunca antes questionado: cuidar de neto.
No lugar da vovó de avental, imagine uma mulher de 67 anos que faz pilates 4x por semana, segue exercendo a profissão de forma autônoma e tem lá seus dates de vez em quando. Essa é a mãe da Lucila. E posso afirmar que não se trata de um caso isolado.
Dizer “não” é fácil, uma vez que esses “novos avós” estão com a terapia em dia. Eles escolhem como, quando e se irão ajudar. Isso tem um motivo: ainda que essas pessoas tenham se aposentado do trabalho, não se aposentaram da vida. É uma mudança profunda na nossa sociedade, fruto de avanços do envelhecimento contemporâneo.

Novas velhices, novos papéis: reveja seus conceitos
Chegar aos 65-70 com saúde, musculatura e cabeça boa é uma novidade. Tente se lembrar de como era ter 60 nos anos 1980 e de como é ter 60 hoje. Hoje, me recordo das minhas tias. Aos 50, eram recatadas senhoras que, como diz meu pai, já estavam com “o jogo batido”.
Ninguém se divorciava, ninguém começava nada significativamente novo. E mais: muitos tios e tias já lidavam, no que se chamava “meia-idade”, com os efeitos de um estilo de vida hoje demonizado: todo mundo fumava e bebia (na frente das crianças, inclusive) e só se fazia exercício físico sob ameaça (do médico).
Resultado: ao fim dos 50, todo mundo já tinha gabaritado na doença crônica. Era uma velhice com perspectivas de futuro mais limitadas. Geralmente, um futuro adoecido.
Isso mudou. Graças a muitos fatores, em especial às eficazes políticas públicas na área da saúde e aos avanços da ciência e da medicina, estamos envelhecendo, de maneira geral, melhor. É claro que há discrepâncias sociais enormes e que a velhice “bem-sucedida” do ponto de vista físico (= ausência de doenças) está 100% atrelada ao nível socioeconômico de uma sociedade.
Isso significa que se a bigorna do Pica Pau não cair na nossa cabeça, vamos chegar aos 70 trabalhando, criando, produzindo, cheios de projetos e sonhos: ser avô/avó será um deles, não o único e talvez não o principal. A história da Lucila exemplifica essa nova realidade.
Não é falta de amor e sim um horizonte mais amplo
Conversei sobre isso com a Lucila e sobre os papéis sociais do sujeito que envelhece, atualmente em obras de expansão (de horizontes).
A gente sabe que a ajuda dos avós no cuidado dos netos supre outros buracos estruturais, como a pouca oferta de creches públicas de qualidade, o preço das escolinhas particulares, o mercado de trabalho competitivo, instável, extenuante e que basicamente pune mães demitindo-as na volta da licença-maternidade (aconteceu comigo) e/ou preterindo mulheres que têm filhos quando se trata de vagas/posições de destaque.

Esse debate, aliás, faz parte da Política Nacional de Cuidados (Lei nº 15.069/2024), uma iniciativa do governo federal que visa reconhecer o cuidado como um direito de todos e dever compartilhado (Estado, famílias, sociedade, setor privado), em nome de reorganizar a oferta de cuidados e redistribuir responsabilidades, combatendo desigualdades de gênero, raça e classe.
Um ponto importante nessa conversa é pensar que a menor disponibilidade de tempo/atenção não deve ser interpretada como falta de amor ou indiferença. Há que se repactuar tudo isso, em novos termos.
Fato é: estamos em um caminho de consciência. Avôs e avós hoje são capazes de olhar para trás e reconhecer que deram um gás para criar os filhos e construir patrimônio. Começaram a trabalhar muito cedo, cuidaram dos pais idosos, abriram mão de desejos pessoais em nome dos filhos, hoje adultos e agora é hora de se colocarem como prioridade. Errados não estão.
A história da Lucila fez algum barulho em você? Me conta!
Mariana Mello

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