Você está sem trabalho e a culpa não é sua
Você está sem trabalho e a culpa não é sua…
Uma professora que trabalhou por 30 anos em uma universidade é agraciada com uma demissão. Um engenheiro que já projetou fábricas e aeroportos está em casa, sem dinheiro e sem perspectivas. Uma jornalista veterana que já dirigiu grandes agências de comunicação sequer tem retorno quando se oferece para atuar como redatora freelancer. Aí estão três histórias de pessoas com quem conversei sobre trabalho nas últimas semanas: todas na faixa dos 60 anos.
Eu poderia seguir o script de 99% dos conteúdos sobre vida profissional na maturidade, ressaltando as vantagens das pessoas mais velhas nas organizações, o crescente número de maduros no mercado, as habilidades humanas (ou soft skills, mas eu escrevo em português) infinitamente mais desenvolvidas em quem já viveu mais, a flexibilidade em relação à remuneração e ao regime contratual, a menor rotatividade (turnover, mesma coisa) etcétera, etcétera.
Tudo isso é verdade, concordo 100%. Realmente acredito que o mercado de trabalho vai assimilar o novo perfil demográfico para o qual caminha o Brasil, em todos os setores da sociedade, pelo amor ou pela dor. Um cálculo feito a partir de números do IBGE aponta que a cada 21 segundos uma pessoa faz 50 anos no Brasil. Mas quero falar dos profissionais que estão agora, em 2026, enfrentando uma ingrata dissonância. De um lado, o auge da capacidade intelectual. Do outro, a miopia etarista de quem (não) contrata.

Passamos a maior parte da vida trabalhando. Sem que a gente perceba, personalidade e profissão se tornam uma amálgama. Tem até aquela clássica dinâmica de grupo: “Diga quem você é, mas sem falar de trabalho”. Pega muita gente de surpresa. Natural, portanto, que uma crise no trabalho se torne uma crise pessoal. Como tem acontecido com pessoas acima dos 50 anos (ou menos).
Me incomoda demais a abordagem coach, muito presente nas redes sociais, que joga a responsabilidade de um problema estrutural como esse nas costas do indivíduo: reinvente-se, se esforce mais, empreenda, ative seu networking. Sim, uma parte a gente faz. Mas seguramente afirmo que sem políticas públicas, sem envolvimento da iniciativa privada e da sociedade como um todo, viveremos de bem-intencionadas ações pontuais. Nada que, de fato, mova o ponteiro.
Eu não estudei para isso
Feita essa ressalva, voltemos à realidade de quem está sem trabalho: o que pode ser feito agora? De tudo o que acompanhei até hoje, só me ocorre uma ideia: olhar para as habilidades transferíveis e oferecê-las como peças de uma possível engrenagem maior. Desapegar do crachá, do cargo e pensar “o que eu sei/posso fazer nesse momento”.
Será necessário compor diversos trabalhos nesse formato para chegar a uma soma razoável. É um futebol puxado, de abrir mão do ego, sorrir para um chefe que poderia ser seu filho (só que malcriado), cavar energia para aprender rápido e lidar com o fato de que você teria capacidade para muito mais. Sim, teria.
Desassociar o trabalho da identidade, por mais desconfortável que seja, pode ser um bom exercício. Sabemos que no Brasil a classe média enxerga a formação acadêmica como status e diferenciação social. E, sim, vemos trabalhos hierarquicamente inferiores, operacionais ou de menor prestígio como as últimas opções. Daí vem o clássico “eu-não-estudei-a-vida-inteira-para-isso”.
É difícil topar qualquer coisa
Por um lado, trabalho é trabalho. Por outro, essa lógica não se aplica tão facilmente a pessoas mais velhas. Quanto mais maduros somos, mais difícil o encaixe. Muitos 50+ vivem a realidade de cuidar, ao mesmo tempo, de filhos adolescentes/jovens adultos e dos pais idosos. Na dupla jornada, perceberem mais claramente certas fragilidades do envelhecimento. É nessa fase que nos deparamos com as primeiras doenças crônicas, com a falta de uma boa musculação e, no caso das mulheres, com a menopausa.
Sem contar o cansaço. Hoje, aos 45 anos, virar uma noite trabalhando ou ser submetida a um estresse profundo me custa pelo menos uma semana de recuperação. O mesmo para um exagero alimentar ou etílico: eu não tenho ressaca, tenho dengue e chikungunya. Ao mesmo tempo, a atividade intelectual nunca esteve tão boa. Perto dos 50, é o auge da experiência, da assertividade e da capacidade de realização.

Pensando no cenário que descrevi acima, você há de concordar comigo: resiliência tem limite. Se a lógica do “trabalho é trabalho” fosse 100% verdadeira, ninguém estaria agora em casa. Tirando uma passeadora de cachorros idosa-atleta do meu bairro, que cobra R$ 500 reais por cachorro, anda com 10 cachorros 3x por dia e ganha mais do que eu. Mas vou terminar fazendo um contraponto, que é minha obrigação como jornalista.
Tem colega meu dando aula de redação para jovens estudantes. Tem ex-executivo que virou corretor de imóveis de luxo. Tem profissional de administração de empresas vendendo consultoria para pequenos empreendimentos locais. Outro dia soube de uma colega que abandonou a comunicação e hoje é gerente de uma joalheria no shopping (falar inglês fez uma enorme diferença para ela assumir a posição). Tem até fundadora de startup (estive com ela dia desses) pensando em largar tudo para virar professora de ioga e viver com menos.
Esqueça seu salário do passado, o cargo que você ocupava, o tamanho da equipe que você já liderou e reflita:
O que você sabe fazer e que o mercado está disposto a pagar?
Talvez você se surpreenda positivamente.
Mariana Mello

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