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Por que você não toma antidepressivo?

Por que você não toma antidepressivo?

Por que você não toma antidepressivo?

Após mais de 21 anos de análise, já tenho ferramentas para enfrentar desafios, traumas e angústias existenciais: “Você está fazendo análise? Por que você não toma antidepressivo?”. Essas são as perguntas que mais tenho escutado ultimamente.

Não, não estou fazendo análise. Fiz análise dos 20 aos 50 anos. Aos 40, estava tão deprimida que fazia, ao mesmo tempo, análise individual com uma terapeuta freudiana, em grupo com outra junguiana e ainda uma terapia corporal com uma reichiana.

Meu último terapeuta era lacaniano e parecia mais interessado em exibir sua inteligência do que em mergulhar nas minhas angústias existenciais. Mas ele foi decisivo quando eu estava tão insegura que não conseguia tomar uma decisão importantíssima para a minha vida.

Estava casada com um homem que eu amava muito, mas não me sentia feliz. Buscava nele o que sempre busquei em todas as relações: proteção, segurança, cuidado, confiança, intimidade e amor incondicional. Apesar de ser uma mulher independente financeiramente e realizada profissionalmente, me sentia totalmente dependente dele. O nosso maior problema era de falta de comunicação. Todos os dias, brigávamos por bobagens e eu me sentia a minha pior versão com ele.



Certo dia, cheguei no consultório do analista com uma listinha das coisas boas e ruins da minha relação com meu marido. Será que devo ou não me separar? Como vou sobreviver sozinha aos 50? Vou ser uma velha infeliz, solitária e abandonada? Não está na hora de eu conquistar a minha autonomia?

Quando comecei a ler a listinha, o analista pegou o papel da minha mão e o rasgou em pedacinhos: “Acabou!”. Tentei argumentar, mas ele só repetia: “Acabou!”.

Sempre fui de ficar remoendo durante anos e anos os erros que cometi, as agressões que sofri, as ofensas que recebi. Nunca consegui me perdoar pelos meus erros, nem perdoar aqueles que me machucaram de alguma forma. Mas, naquele momento, aprendi a conjugar “acabou!”.

Foi a minha última sessão de terapia. Cheguei à conclusão de que tudo o que eu precisava saber para sobreviver física e emocionalmente já estava dentro de mim.

Percebi que ninguém, nenhuma relação, poderia me dar a segurança, proteção, cuidado e amor que eu tanto precisava. E que as feridas dos meus traumas de infância jamais iriam cicatrizar.

Como meu atual marido sempre reclama, não consigo relaxar nunca. Estou sempre escrevendo, lendo, estudando, pesquisando, trabalhando, produzindo, aprendendo, tendo ideias para novos projetos, buscando criar algo relevante e significativo. Ele me chama de “robozinho” porque minhas pilhas ou baterias não acabam nunca. Não consigo simplesmente “curtir” o momento, “fazer nada”, escutar uma música, assistir a um filme sem refletir e escrever sobre o que estou sentindo. Apesar de amar o meu trabalho, estou exausta de remoer dores e feridas de muitos anos, algumas de mais de meio século.



“Não, não posso parar, se eu paro eu penso, se eu penso eu choro”.

Até mesmo uma simples caminhada na praia ao entardecer pode se transformar em um artigo ou livro. Aliás, um dos textos que escrevi para a Folha foi logo depois de ter sido cercada por cinco garotos, armados com facas, quando estava sentada na areia anotando algumas ideias para a minha coluna.

“Passa tudo o que você tem aí, tia”.

“Mas não tenho nada, só papel e caneta”.

“Vou te cortar todinha, tia”.

Logo depois de me recuperar do susto, comecei a escrever sobre o impacto de ter sido chamada de “tia” pelos garotos.

“Em busca de sentido”, de Viktor Frankl, me ensinou que mesmo nas circunstâncias mais dramáticas ainda tenho a liberdade de escolher a atitude que posso ter frente ao sofrimento inevitável. E que posso aprender a enxergar os desafios cotidianos como oportunidades de autoconhecimento, de crescimento pessoal e de construção de um projeto de vida.

Não, não estou tomando antidepressivos, nunca tomei. Mas, durante décadas, tomei Lexotan para conseguir dormir. Na pandemia, quando aumentou significativamente o consumo de antidepressivos e ansiolíticos no Brasil, eu parei de tomar o medicamento. Não é um paradoxo curioso?

Em meio à dor dilacerante de perder a pessoa que eu mais amei em toda a minha vida, descobri que já tenho recursos internos e externos para superar (ou aceitar) os traumas, obstáculos, adversidades e desafios existenciais.

Acabou!

Mirian Goldenberg


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Mirian Goldenberg
Sobre

Mirian Goldenberg

Professora Titular do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora em Antropologia Social pelo Programa de PósGraduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colunista do jornal Folha de S Paulo, desde 2010 e autora de 30 livros.

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