Corpo: Entre o Espelho e a Liberdade

Corpo: Entre o Espelho e a Liberdade.
Tem dias que eu paro na frente do espelho e fico só me olhando.
Não é vaidade. É tentativa de reconhecimento.
O corpo que me encara de volta já não é aquele de dez, vinte anos atrás.
A pele cedeu em lugares que antes eram firmes.
Os contornos mudaram, o abdômen virou mais macio, e o pescoço, meu antigo orgulho, agora parece cansado.
É estranho — não dolorido, mas estranho — me ver mudando por fora ao mesmo tempo em que me sinto mais viva por dentro.
Por muito tempo, confesso, tive vontade de esconder.
A barriga, os braços, as rugas, o volume nos quadris.
Mas tem uma hora que você entende que passar a vida brigando com o próprio corpo é uma batalha perdida.
E pior: uma guerra que ninguém vence.
Então hoje, quando a luz do banheiro me mostra sem piedade, eu respiro.
E me pergunto: pra quem eu ainda estou tentando agradar?

Tenho cicatrizes, celulite, flacidez.
Mas tenho também a memória de cada passo, cada tropeço, cada dança, cada gesto de amor vivido com esse mesmo corpo.
E foi nesse processo de me ver, com mais generosidade, que comecei a observar também como outras mulheres vivem isso.
Algumas com paz. Outras, com dor.
A Carol, por exemplo. Tem 53 anos e uma beleza clássica, daquelas que chamam atenção em qualquer sala.
Mas ela vive em guerra.
Faz procedimentos, dieta, academia… não por prazer, mas por medo.
“Tenho pavor de envelhecer e me tornar invisível”, ela me disse uma vez, com os olhos úmidos.
Ela ainda acredita que o valor dela está na estética, e isso a sufoca.
Não julgo. Já estive ali também.
Outro dia, ela chorou porque viu uma foto sua sorrindo, com marcas ao redor dos olhos.
“Olha essas rugas!”, disse.
E eu respondi:
“É o mapa da sua alegria, Carol. A prova de que você viveu.”
Ela riu. Meio sem graça.
Mas ficou em silêncio depois. Um silêncio de quem talvez tenha começado a pensar diferente.
Porque o corpo que muda também ensina.
Ensina sobre impermanência.
Sobre tempo.
Sobre o que realmente importa.
Hoje, eu troco o julgamento pela escuta.
Toco minha pele como quem agradece.
E quando me olho, não busco mais aprovação.
Busco presença.

Para refletir:
Você tem se enxergado com os olhos do amor ou com os olhos do medo?
Que história o seu corpo te conta quando você para de tentar controlá-lo?
Você se permitiria dançar sem se preocupar com quem está olhando?
Vamos nessa?
Patrícia Ceola

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