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Como transformar o medo em coragem

Como transformar o medo em coragem

Como transformar o medo em coragem: aprendi, com Maya Angelou, que a coragem é a mais importante de todas as virtudes.

Logo no início do meu doutoramento em antropologia social, em 1988, resolvi fazer uma pesquisa sobre o Santo Daime. Eu pretendia fazer só entrevistas em profundidade com os nativos do “Céu do Mar”, uma igreja do Santo Daime fundada em 1982, no bairro de São Conrado, na cidade do Rio de Janeiro. Rubem César Fernandes, meu orientador na época, sugeriu que, além das entrevistas, eu fizesse observação participante, o que significava participar do ritual e beber o chá: uma mistura de ayahuasca e plantas amazônicas.

Estava com muito medo de tomar o chá, pois um dos membros da igreja havia me advertido sobre a “Surra do Daime”: vômitos, diarreias, tremedeiras, mal-estar e outros efeitos desagradáveis provocados pelo potente alucinógeno de origem indígena.

Apesar do medo, acabei tomando o chá e participando do ritual que começou de tardinha e só acabou na manhã seguinte. Dancei e cantei os hinários como os nativos. Mas, em vez de vomitar e de enxergar seres da floresta como quase todos os que estavam lá, eu me senti uma mulher corajosa, forte e poderosa como nunca havia me sentido antes.

Não me tornei nativa, foi a minha primeira e única experiência com o Daime, mas meu orientador tinha razão: somente com as entrevistas eu não teria conseguido compreender a lógica nativa e a importância do chá no ritual.

Outro aprendizado significativo ocorreu na minha primeira entrevista para a tese sobre Leila Diniz. Ao entrar no prédio da irmã mais velha de Leila, pisei no cocô de cachorro que estava na calçada. Fiz de tudo para limpar o sapato antes de entrar no apartamento, mas, mesmo morrendo de vergonha, pedi para ir ao banheiro para tentar diminuir o cheiro insuportável.

Para piorar a situação, o gravador não funcionou e, depois de mais de duas horas de entrevista, apesar de ter anotado tudo o que consegui, marquei uma nova conversa para aprofundar o que ficou faltando. No segundo encontro, levei três gravadores. Desde então, além de tomar nota de tudo o que considero mais relevante, sempre levo três gravadores nas minhas entrevistas.

Um episódio marcante aconteceu quando eu estava escrevendo minha tese de doutorado sobre Leila Diniz. Fui convidada para um debate sobre as diferenças de gênero no Teatro Casa Grande no Rio de Janeiro. Fiquei com muito medo de aceitar, pois a organizadora do evento disse que o outro debatedor era um “bam-bam-bam” das ciências sociais brasileiras e que estava esperando lotar o auditório de mil lugares. Apesar da minha ansiedade e insegurança, aceitei o convite e fiquei um mês me preparando para apresentar as questões mais relevantes da minha tese sobre a trajetória de uma mulher revolucionária.

Fui a primeira a falar e tive a certeza de que minha apresentação havia sido um fracasso, ainda mais quando o “bam-bam-bam” arrancou muitas risadas do auditório lotado. Quando ele terminou, uma jovem sentada na primeira fila se levantou para fazer uma pergunta.

Maya Angelou (foto: John Mathew Smith & www.celebrity-photos.com from Laurel Maryland, USA, CC BY-SA 2.0 https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0, via Wikimedia Commons)

“Acho que essa mesa representou muito bem o tema proposto. A Mirian fez uma apresentação séria, com muito conteúdo, com ideias interessantes em exatos trinta minutos como estava previsto no programa. E o único homem da mesa falou uma hora, estourou o tempo previsto e ficou lendo anotações que fez no guardanapo durante a fala da Mirian, não apresentou nada de relevante e ainda debochou de questões muito sérias. Como explicar essa diferença de gênero tão gritante?”

Depois dela, todas as perguntas do público foram sobre a minha pesquisa. O “bam-bam-bam” ficou bem chateado e foi embora antes do fim do debate.

São muitas as minhas noites de insônia para ter a coragem necessária para preparar cada palestra e conferência; para participar de cada debate; para escrever cada livro e cada coluna para a Folha.

Aprendi, com a poetisa Maya Angelou, que a coragem é a mais importante de todas as virtudes. “Busque as coisas que você ama fazer, e então faça-as tão bem que as pessoas não consigam tirar os olhos de você… Eu aprendi que as pessoas vão esquecer o que você disse, as pessoas vão esquecer o que você fez, mas as pessoas nunca esquecerão ‘como’ você as faz sentir… A coragem é a mais importante de todas as virtudes porque, sem coragem, não se pode praticar qualquer outra virtude de forma consistente.”

Mirian Goldenberg


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Mirian Goldenberg
Sobre

Mirian Goldenberg

Professora Titular do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora em Antropologia Social pelo Programa de PósGraduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colunista do jornal Folha de S Paulo, desde 2010 e autora de 30 livros.

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