Comportamento Histórias de Vida

Por que mulheres brasileiras têm pânico de envelhecer?

Por que mulheres brasileiras têm pânico de envelhecer?

Por que mulheres brasileiras têm pânico de envelhecer?

Preciso confessar que eu, como muitas brasileiras, já tive medo e vergonha de dizer a minha idade. Por isso, quando completei 40 anos, criei o Movimento das Coroas Poderosas para combater os preconceitos e os estigmas que cercam o envelhecimento. Nenhuma amiga quis participar. Depois dos 50, quando me perguntavam a idade, costumava responder: “Eu sou ageless, sem idade, inclassificável.” Achavam chique!

Passei pela fase de responder com a pergunta clássica: “Quantos anos você acha que eu tenho?” E ficava feliz quando os amigos mais generosos e mentirosos respondiam dez anos a menos. Quanto mais mentiam, mais eu ficava feliz. Algumas vezes respondia: “Nunca pergunte a idade de uma mulher, que indelicadeza e falta de educação.”

Após as infrutíferas tentativas de fingir que não estou envelhecendo, para ser coerente com tudo o que estudo, pesquiso e defendo há mais de trinta anos, resolvi assumir a minha idade: tenho 93 anos.

Por que 93 anos? É a faixa etária dos meus amigos mais queridos – Guedes, Canella e Nobolo (98 anos), Thaís (95 anos), e Gete, Nalva e David (93 anos) – e dos trinta homens e mulheres que estou pesquisando há quase sete anos. Todos independentes, saudáveis, lúcidos, ativos, alegres e cheios de projetos de vida: os chamados superidosos.

Desde o início de 2015 eu só convivo com homens e mulheres de quase cem anos. Antes da pandemia, ia com eles à Academia de Terceira Idade, ao supermercado, ao teatro e ao cinema, restaurantes e botecos e, principalmente, a encontros musicais, onde passo horas e horas saboreando o delicioso piano de Gete e de Nalva. As duas são pianistas maravilhosas, que tocam, sem partitura, incontáveis tangos, boleros, MPB, sambas, chorinhos e muito mais. É com meus amigos nonagenários que gosto de conversar por telefone todos os dias. São eles que cuidam de mim quando estou triste e sem esperança. São eles que dão alegria à minha vida com suas risadas gostosas. São eles que me inspiram com seus projetos de vida.

Enquanto as minhas amigas postam no Instagram fotos dos filhos e netos, eu exibo orgulhosamente fotos dos meus nonagenários queridos. Eu me tornei nativa, como diria o antropólogo Bronislaw Malinowski. Falo, penso e vivo como uma pessoa de 93 anos. Parodiando Marcos Valle que cantava: “Não confio em ninguém com mais de 30 anos”, eu prefiro cantar: “Não confio em ninguém com menos de 90 anos.”

Então, não tem mulher que mente a idade?

Como me tornei uma militante em tempo integral na luta contra a velhofobia no Brasil, contra os preconceitos e o pânico de envelhecer, decidi sair do armário e assumir: tenho 93 anos. Como as mulheres mais velhas que eu venho pesquisando nas duas últimas décadas, nunca fui tão livre e feliz. É a primeira vez que posso ser eu mesma. É o melhor momento de toda a minha vida.

Não me canso de repetir que a única categoria social que inclui todo mundo é velho. O jovem de hoje é o velho de amanhã. Por tudo isso, eu também sou velha. E velha é linda. Viva a bela velhice! Quero, então, compartilhar com vocês o meu Manifesto das Coroas Poderosas. Será que vou ganhar alguma militante para o meu movimento?

A “coroa poderosa” não se preocupa com rugas, celulites, quilos a mais. Ela está se divertindo com tudo o que conquistou com a maturidade: liberdade, segurança, charme, sucesso, reconhecimento, respeito, independência e muito mais.

Ela quer rir, conversar, sair, passear, dançar, viajar, estudar, cuidar da saúde, ter bem-estar e qualidade de vida; enfim, “ser ela mesma” e não responder, desesperadamente, às expectativas dos outros. Quer exibir o corpo sem medo do olhar dos homens e das mulheres, sem vergonha das imperfeições e sem procurar a aprovação dos outros.

Quer namorar com quem ela bem entender (não importa a idade), fazer amor quando quiser e beijar muito na boca. Ou também pode não querer mais nada disso. Quer vestir a roupa de que mais gosta, mesmo que seja considerada velha demais para usar minissaia, biquíni, shorts, jeans e botas.

A coroa poderosa descobriu que a felicidade não está no corpo perfeito, na família perfeita, no trabalho perfeito, na vida perfeita, mas na possibilidade de “ser ela mesma”, exercendo seus desejos, explorando caminhos individuais e tendo a coragem de ser diferente. Ela sabe que não deve jamais se comparar a outras mulheres, porque cada uma de nós é única e especial.

Portanto, como presidente, secretária, tesoureira e única militante do “Movimento das Coroas Poderosas” (já que todas as amigas que chamei para participar do grupo se sentiram ofendidas), convoco todas as mulheres, de qualquer idade, que estão cansadas de sofrer com os preconceitos, com os tabus e com as prisões sociais a se unirem ao nosso grito de guerra: “Coroas poderosas unidas jamais serão vencidas! Fodam-se as rugas, as celulites e os quilos a mais!”

Mirian Goldenberg


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Mirian Goldenberg
Sobre

Mirian Goldenberg

Professora Titular do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora em Antropologia Social pelo Programa de PósGraduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colunista do jornal Folha de S Paulo, desde 2010 e autora de 30 livros.

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