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Toda nudez será castigada

Toda nudez será castigada

Toda nudez será castigada

Vovó fitness faz topless em Ibiza e dispara: ‘Orgulho dos meus seios'”, foi o título de reportagem do UOL de 8/8/2023. O texto contava que Andrea Sunshine, de 53 anos, uma brasileira que mora em Londres, postou uma foto no seu Instagram fazendo topless.

“Tenho orgulho dos meus seios perfeitos. Primeiro que meus peitos não são caídos… Faço musculação regularmente e treino muito peito. Além disso, também uso hidratantes com efeito firmador. Como muita carne magra e ovos, e dou preferência para bebidas antioxidantes, como chá verde e frutas vermelhas. Aprendi que essa combinação reduz os danos na pele e nos músculos, e ajudam na sustentação dos seios’”.

Em entrevista ao Daily Mail, um tabloide britânico, Andrea contou que tem dois netos e é completamente viciada em malhar: ela malha oito horas por dia e chega a comer 150 ovos por mês. Depois disso, a imprensa britânica passou a chamá-la de “fit-gran” (“vovó fitness”). Andrea também contou ao tabloide britânico que é bissexual e que já transou com 720 pessoas desde que se divorciou.Em entrevista ao Daily Mail, um tabloide britânico, Andrea contou que tem dois netos e é completamente viciada em malhar: ela malha oito horas por dia e chega a comer 150 ovos por mês. Depois disso, a imprensa britânica passou a chamá-la de “fit-gran” (“vovó fitness”). Andrea também contou ao tabloide britânico que é bissexual e que já transou com 720 pessoas desde que se divorciou.

Andrea Sunshine, a vovó fitness – Imagem: Reprodução/Globo

Ao ler a reportagem sobre a “vovó fitness” de topless, lembrei-me de uma cena que aconteceu comigo, em 2008, quando eu estava na cidade de Tarragona, na Espanha, para dar palestras em um curso de pós-graduação na Universidade Rovira i Virgili sobre “O corpo como capital na cultura brasileira”. Um dia, caminhando pela cidade, sentei-me em um banco efiquei observando um grupo com crianças, adultos e velhos brincando na areia e no mar. Todos estavam nus.

Ao observar aquele grupo tão feliz, sem roupa, lembrei-me de uma vez que fui, com um grupo de amigos, passar o fim de semana em uma casa de campo. Na sauna, todos, homens e mulheres, ficaram nus. Menos eu, que fiquei o tempo todo com um biquíni muito bem comportado. O fato de ser a única “vestida” me fez sentir que eu era um “peixe fora d’água”.

Anos depois, fui, com um grupo de italianos que conheci em uma viagem pela América Latina, para o lugar mais paradisíaco que conheci em toda a minha vida: Cahuita, uma praia na Costa Rica. Lá, todos, ficaram nus, mas eu continuei com meu biquíni bem comportado. Uma fotógrafa italiana disse que eu tinha o corpo muito bonito e que eu não deveria ter vergonha de ser livre. Ela quis tirar fotos minhas sem o biquíni para eu guardar uma lembrança de Cahuita.

Estava imersa nos meus pensamentos, tentando compreender por que não havia tido a coragem de ficar nua nessas diferentes situações, quando ouvi uma voz perguntando quem eu era e o que eu estava fazendo em Tarragona. Para minha surpresa, era um homem muito bonito, de cabelos brancos, corpo bronzeado, todo molhado, pois havia acabado de sair do mar. Um pequeno detalhe: ele estava completamente nu.

O mais engraçado é que eu estava toda encasacada, com calça, blusa, casaco, boina, luvas e meias de lã. Depois de conversarmos em castelhano durante alguns minutos, ele me chamou para conhecer o grupo que eu estava observando. E me apresentou sua mãe, seu pai, irmãs, cunhados, filhos e sobrinhos, todos sem roupa.

Adorei conversar com sua mãe, de 87 anos. Ela me contou que adora ir à praia com os filhos e netos. Para ela, a nudez é um hábito muito natural e prazeroso. Ela achou estranho me ver toda encasacada em um dia tão ensolarado. “Logo percebi que você não era daqui. Só não imaginava que fosse brasileira e que morasse no Rio de Janeiro. Achava que o Brasil era a terra da liberdade. Quer dizer que não posso ficar desnuda em uma praia do Rio de Janeiro?”



Percebi que, bem diferente da avó de 87 anos, eu me sentia prisioneira do meu próprio corpo. A nudez, para mim, estava mais ligada à ideia de sexualidade do que de liberdade. Eu não tinha coragem de ficar nua pois o meu corpo estava vestido de preconceitos, estigmas e prisões culturais.

No Brasil, o corpo é um verdadeiro capital, especialmente para mulheres, como a “vovó fitness”, que fazem enormes investimentos e sacrifícios para serem eternamente jovens, atraentes e sensuais, conquistarem a “boa forma” e terem “seios perfeitos”. Em uma cultura considerada “campeã do sexo”, em que tantas mulheres se sentem massacradas pela cobrança de exibirem um “corpo capital”, toda nudez será castigada.

Mirian Goldenberg


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Mirian Goldenberg
Sobre

Mirian Goldenberg

Professora Titular do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutora em Antropologia Social pelo Programa de PósGraduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colunista do jornal Folha de S Paulo, desde 2010 e autora de 30 livros.

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