Histórias de Vida

Era um dia chuvoso…

Era um dia chuvoso…

Era um dia chuvoso…

No auge dos meus 50 anos; recém-separada, eu pensava para onde teria ido todo o meu empoderamento… onde estavam todas as minhas certezas…

Eu me sentia sozinha, abandonada, nada e vazia. Minha única companhia era uma garrafa de Mineirinho (meu refrigerante preferido) e o barulho da chuva…

Conheci o Leo por acidente. Até hoje não sei por que nossos olhos se cruzaram no corredor do meu prédio; eles tinham um ímã… nossos lábios tinham um ímã… Só sei que era fácil sorrir para ele, era fácil olhar para ele… eu o desejava… ah, como eu o desejava…



Ele era os meus “instantes”. Por instantes, eu esquecia que era mãe, por instantes, eu esquecia que era responsável, por instantes, eu esquecia a minha profissão… Perto dele, eu era uma caçadora… e ele, a caça…

E eu não percebia quanta vulnerabilidade esse jogo me levaria… eu não percebi que a caça era eu… eu baixei todas as minhas defesas… e me entreguei de corpo e alma àquele sorriso, àqueles olhares…

Parecia tudo perfeito… no mundo do tesão, só existe paixão. Os medos são silenciados…

Até que, um dia, recebi uma mensagem com uma foto:

“Que tal um vinho hoje?”

Na foto, havia um Mineirinho…

Como boa caçadora, coloquei minha melhor lingerie, meu melhor perfume e me vesti da minha maior coragem… e atravessei aqueles corredores… eu suava, eu tremia, mas eu também desejava…

Quando ele abriu a porta, eu escutei:

“Você tá linda…”

E, de novo, vi aquele olhar, aquele sorriso…

Entrei, me sentei e esperei, ansiosa, por uma aproximação… eu estava completamente apaixonada pela aventura, pela sensação, pela emoção…

Estranhamente, ele não se aproximou… manteve-se distante… me serviu um copo de refrigerante… sorriu… e eu fiz uma piada: Está na hora de reduzirmos essa distância…

Era o meu instante de mulher aventureira… Ele sorriu, e eu me aproximei.

Antes de eu conseguir chegar até ele, ele me olhou…

Dessa vez, o olhar era outro… tinha nuvens no olhar… e eu senti, pela primeira vez, medo e receio… Ele disse:

“A grande questão é que você é legal demais para eu mentir para você.”



Ali, ele me contou que era casado, que sua esposa estava aguardando transferência do trabalho, mas que, quando me viu, não sabia por que nossos olhos se encontraram…

Eu queria deixar aquilo de lado, beijá-lo… mas me dirigi em direção à porta e saí, sem nem olhar para trás…

E hoje estou aqui… sozinha… eu, meus pensamentos… uma saudade do que não vivi… e os meus pensamentos…


O Brinde que Não Aconteceu: Entre o Desejo e a Realidade

A história daquela noite chuvosa não terminou com o tilintar de taças, mas com o silêncio de uma porta se fechando. Às vezes, o empoderamento não está em conseguir o que se deseja, mas em ter a força de ir embora quando o ‘instante’ exige que você abra mão de si mesma.

Fica a saudade do que não foi vivido, é verdade, mas fica também o resgate da própria dignidade. Entre o refrigerante preferido e a chuva que insiste em cair lá fora, aprendemos que ser ‘legal demais’ não é um erro; é o que nos protege de nos perdermos em labirintos que não nos pertencem.

Dra. Ana Flávia Dias



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Ana Flavia Dias
Sobre

Ana Flavia Dias

Ginecologista e terapeuta sexual... Amante da alma humana... Te ajudo a descobrir ou melhorar seu prazer sexual em todas as fases da vida.

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